Já ouviu falar em depressão cívica?
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Já ouviu falar em depressão cívica?

Depressão cívica é uma expressão para designar consequências ao coletivo de ameaças à democracia. Nesse texto, falo um pouco de minha experiência relacionada a isso.

Vinícius Lacerda
3 min
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Recentemente, fui apresentado à expressão depressão cívica. Logo, no primeiro contato senti uma estranha aproximação, mesmo sem ter elaborado exatamente sobre o que se tratava. E mais: não ficaria surpreso em saber que essa mesma sensação aconteceu com muitas outras pessoas. 

Desde 2014, o Brasil tornou-se palco de disputas e processos dolorosos em relação aos direitos. O atual governo, no entanto, contribui atuando diretamente a favor do regresso, das fábulas hostis e do fomento ao medo. 

Ao incitar (direta ou indiretamente) ideais e ideias neofascistas, fomentar o compartilhamento massivo de notícia falsas, promover o alinhamento dos poderes em prol de objetivos, minimamente escusos, e o retrocesso gigantesco nas áreas da saúde, educação e ambiente, o governo leva tristeza aos cidadãos que se importam como desenvolvimento igualitário do país. 

Esse brevíssimo e injusto resumo (provavelmente, mesmo um livro com centenas de páginas terá dificuldades em explicar os acontecimentos no país em relação aos últimos anos) também indica como cidadãos foram e estão bombardeados com notícias e decisões dilacerantes. Vivendo muitas vezes como alvo, à espera de ser acertado por mais uma nova ação (seja macro ou micro) de um governo persistente no desmantelamento de tudo que uma sociedade democrática prevê. É comum ficar triste, desesperançoso e, por que não, depressivo. 

Lembro nitidamente nos dias seguintes ao fim da eleição de 2014: comecei a desenvolver um medo de sair de casa à noite. As manifestações pró-governo à época incluíam uma suposta autorização à agressão à comunidade LGBTQI+ e, por mais distante que isso possa parecer, torna-se real diante da mente de quem teme por sua segurança apenas por ser quem é. A história não me deixa mentir: as minorias têm lugar especial quando a brutalidade primitiva é autorizada. Fiquei alguns dias sem sair de casa. 

Esse estado de alerta não é exclusivamente meu; é compartilhado e, ao longo dos últimos anos, para cada um - dos sujeitos antifascistas - tornou-se constante. “Será? Quando? Não é possível…” são outras expressões presentes no consciente, pulam quase diariamente diante de acontecimentos e tomadas de decisões governamentais nocivas à democracia. Não me surpreende, assim, que depressão cívica faça tanto sentido para mim, mesmo sem conhecer profundamente seu significado, pois essa sensação de impotência, tristeza perante as ameaças à democracia atrelada à improdutividade consequente de tal estado e presente em qualquer depressão e as exigências de sucesso intrínsecas à era neoliberal, são constantes nos últimos anos para mim e conhecidos próximos.

Conheço muitas pessoas que preferem não rotular o que sentem ou o que são. Sem dúvidas, respeito essa vontade. Mas, para mim, é reconfortante dar nome aos bois, entender melhor o que se passa comigo e com as relações que estabeleço com o mundo por meio de um conceito elaborado. Por isso, foi muito bem-vindo ter trombado com essa nova expressão e reconhecer que temores coletivos frutos da ameaça à democracia existem, como também apresentam consequências psíquicas.