Voltei.
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"Quem só acredita no mundo visível tem um mundo muito pequeno"
Voltei.
Só que agora muito mais chique. Impossível não comentar esse banner maravilhoso que adorna a cabeça desta cartinha. É um presente do meu amigo William Augusto, ou WA Criativo.
Ele tava num flerte louco com grafismos geométricos; eu, naquele frenesi com a geometria sagrada. Deu match. E agora finalmente vamos ter o ar de elegância libriana que essa newsletter merece.
Obrigado, Will, o senso estético de todo mundo agradece.
Mas não foi só isso que mudou, não. Como diz o Black Alien, "a mesa ainda tá aqui, porém mudei certezas de lugar".
Nesse meio tempo, fui sequestrado pela Anna e acabei indo passar o carnaval na casa dela, no Rio de Janeiro. Isso me permitiu organizar a mesa das minhas certezas de uma forma que não seria possível em São Paulo.
Desde que li o livro Dançando nas Ruas, da Barbara Ehrenreich, desenvolvi um apreço especial por manifestações populares, principalmente por conta da dimensão política. Como a Barbara escreveu:
"As celebrações musicais dos subordinados podem ser consideradas mais perigosas para as elites do que as ameaças políticas abertas."
Dançar até atingir o êxtase sempre foi uma forma de conexão espiritual, porque nos mostra literalmente que a felicidade vem de dentro, não de fora. E isso é um perigo. Gente feliz não é consumidor compulsivo, gente feliz não vira gado.
Talvez, por isso, a perseguição aos rituais extáticos (de êxtase) coincida com o início do capitalismo.
Foi só depois da criação de um "modelo de produção" que a gente foi obrigado a concentrar a farra a quatro dias no ano. Nesses quatro dias, pode fazer tudo, mas nos outros TEM QUE TRABALHAR.
Como a Barbara escreve, sobre o período do início da industrialização:
"As classes médias tinham que aprender a fazer cálculos, poupar e 'adiar a gratificação'; as classes baixas precisavam ser transformadas em uma classe trabalhadora disciplinada e sempre alerta — o que significava muito menos feriados e a nova necessidade de se apresentar sóbrio e na hora certa ao trabalho, seis dias por semana."
Isso foi um grande choque. Não porque as pessoas não fossem acostumadas a trabalhar. Elas trabalhavam pra caralho. Mas, até a industrialização, o trabalho era em surtos sazonais, de acordo com as colheitas.
Logo, se encher de glitter e sair seminu na rua com uma garrafa de catuaba numa mão e uma de corote na outra pode, sim, ser libertário — mas pode não ser também, nem todo bêbado tem pretensões revolucionárias.
Gosto de pensar que sim.
Tanto que, no Rio, a gente foi no bloco de um amigo chamado CPF do Crivella. Ele tem esse nome porque o Crivella — o bispo que governa a cidade como se fosse um cavaleiro do apocalipse —resolveu punir os blocos não oficiais multando o CPF dos organizadores. Daí os cariocas foram lá e colocaram o número do documento do bispo no estandarte do bloco pra poderem soletrar facilmente caso os policiais solicitassem.
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Foi um dos blocos mais legais que a gente foi. E também foi onde pude viver uma das experiências mais oníricas que já tive com MDMA, o famoso Michael Douglas.
Essa substância, que é a base doecstasy(ou "bala" para os jovens), vem sendo estudada há um tempo como tratamento para distúrbios mentais como o transtorno do estresse pós-traumático (TEPT). Ela é uma das respostas pra crise que existe hoje na psiquiatria e que o Denis Russo Burgieman explicou muito bem nessa coluna.
Nos EUA, o TEPT é um problema bem grave que acomete, por exemplo, soldados que retornam das guerras que os presidentes daquele país insistem em declarar — estou piscando para vocês, fãs de Homeland.
Mas o interessante é que, como afirma o psiquiatra William Berger, da UFRJ, nessa reportagem maravilhosa do The Intercept, o TEPT é "mais nocivo à população das favelas cariocas do que a soldados no front". Isso porque, segundo ele, "soldados tem preparo físico e psicológico, além de serem retirados do local e de, em algum momento, terem a oportunidade de deixar o conflito para trás e retornar para suas casas. Já para a população das favelas a guerra está do outro lado da porta da sala."
Enfim, seja como for, os EUA têm bastante interesse na cura desse problema. Em 2022, o governo norte-americano deve regulamentar o uso terapêutico do MD, fazendo com que ele se torne o primeiro psicodélico de uso legal, desde a proibição dessas substâncias na década de 1970.
Eu não tenho TEPT, nem tô em tratamento de nada, mas acho que o uso recreativo pode abrir portas interessantes na minha mente quando sigo algumas determinações pessoais (que eu já falei naedição #24). Como psiconauta aplicado, gosto de observar os efeitos desse tipo de substância de forma consciente —por mais paradoxal que isso possa parecer para quem nunca teve experiências do tipo.
Por isso, resolvi me sacrificar pela ciência e fazer esse experimento no carnaval do Rio. Como anunciei para os amigos cientistas do grupo de estudos de ayahuasca da Unicamp, do qual faço parte, o resultado foi bastante positivo.
Enquanto eu descia com os amigos o morro de Santa Teresa, em meio à vegetação da Mata Atlântica, a substância subia na minha mente. Gosto do efeito do MD, porque ele tende a me deixar tão relaxado que o único adjetivo que eu consigo usar para descrevê-lo é "gostosinho" —como quando você ouve Redemption Song, do Bob Marley, na beira da praia, tomando uma caipirinha.
E foi exatamente como eu me senti quando comecei a ouvir os músicos tocarem clássicos como Wonderwall e Californication em ritmo de marchinha. Quando eles passaram a tocar Tim Maia eu já estava sentindo como se pudesse pegar jacarés nas marolas do espaço-tempo com meu bodyborad cósmico.
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Meus braços viraram serpentes que rebolavam como najas ao som de flautas, e a única coisa que eu conseguia fazer era ofertar para o Universo todo o amor que eu estava sentindo por aquele momento, pelos meus amigos, pelos músicos e pelas decisões acertadas que me levaram até ali.
Dancei sob um Sol de aquário recebendo e sendo grato por toda a radiação desse deus dourado que me atravessava e aquecia até a molécula mais reclusa do meu corpo. Eu nem sei se astrologicamente o Sol era de aquário mesmo, mas gosto dessa imagem, porque me faz sentir como se fizesse parte do elenco de Hair.
Enquanto todo mundo sacudia o corpo e pulava como se tentasse recuperar a vida desgastada a cada segundo que se passa sob a luz pálida do escritório, eu lembrei da Ehrenreich citando Ralph Ellison:
"Mantenham o ritmo e assim manterão a vida. Mantenham o ritmo e não ficarão esgotados. Mantenham o ritmo e não se perderão. (...) Eles não conseguiram nos dividir graças à música. Porque, onde quer que nos levassem, batíamos os pés juntos."
Não demorou para que um pensamento surgisse na minha mente: "Eu sou feliz". E, por mais que aquele momento não durasse mais do que a pequena eternidade do cortejo, ele já tava gravado na minha memória. Já tava registrado nos meus arquivos, e então eu soube que ele poderia ser acessado toda vez que eu sentisse medo, insegurança ou cometesse a indelicadeza de pensar que eu sou um bosta.
Agora, eu era feliz.
Não tenho como provar, mas —para o desespero de quem governa através do medo e da violência — quem já foi feliz ao menos uma vez na vida e entende que o tempo é circular, como uma serpente engolindo o próprio rabo, sabe que não se pode deixar de ser feliz nunca mais.
O que eu tô ouvindo:
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Nicolás Jaar é o que eu boto pra escutar quando chega gente aqui em casa e eu quero deixar os convidados se sentindo como se estivessem no palácio de um sultão. No fim do mês, o músico chileno-americano lança um álbum novo, mas já dá pra escutar o primeiro single (que tem nome de ex-vocalista da finada banda Twister): Sunder.
Ainda não deu tempo de soltar todas as ideias que eu tive nesse meio tempo.
Ao contrário do Neil Young, que prefere queimar de uma vez do que se apagar aos poucos, eu prefiro que o fogo vá se propagando lentamente até ser tarde demais pra perceber que tudo já virou cinza— pra então se transformar novamente.
Deus, que enigmática ficou essa frase! Por que me fizeste tão chato, senhor?
O que eu quero dizer é que eu vou soltando as novidades aos poucos, inclusive o Oráculo do Bowie, que vai voltar com uma harmonização facial.
Mas já adianto que agora a PunkYoga tem uma conta no instagram: @punkyoga_. Devo falar mais dela, mas, por enquanto... Descubra.
Agradeço de coração por ter chegado até o final. Sei que, pra muita gente, se trancar em casa por conta de um vírus, não é uma coisa muito fácil, mas espero que essa carta possa ajudar de alguma forma.
Vai pela sombra e fica na paz de Bowie.
Com amor,
Nathan
Se você chegou aqui através de um link, deve tá pensando: "Como eu assino essa newsletter maneira?". Ora, é só deixar seu e-mail aqui. E dá pra ler as edições anteriores aqui também. Se não curtiu e tá aqui lendo esta última linha, admiro sua capacidade de autoflagelação.